Street Store – A Ação de rua

Todo mundo já doou um agasalho velho, ou um brinquedo que não usa mais. Até um livro. Todo mundo já deu esmola. Todo mundo conhece alguém que doou ou doa sangue. Todo mundo já precisou de sangue.

Então todo mundo entende que doar é importante, é bom, é necessário. Todo mundo precisa ou precisou de algo. Mas quando chega a hora de doar, parece que tudo trava. É fácil doar o agasalho surrado, é tranquilo doar a lata de óleo que está ne despensa. Mas tirar uma nota de 10 (ou 50) do bolso … trava tudo. Será que são confiáveis? Ah, eu dou roupas e utensílios, mas dinheiro não, ele vai acabar no bolso de picaretas. Eu não vou doar pra essa ONG, ela é rica, já recebe muito dinheiro. E por aí vai.

streetstore

Largo da Batata, Pinheiros, São Paulo. Durante todo o dia um conjunto de voluntários monta uma loja na rua. Street Store é o nome da iniciativa. Nessa loja tudo é de graça. Roupas foram previamente doadas e agora estão expostas em cabides especiais enquanto os sapatos estão em vitrines imaginárias. Imaginou? A foto ajuda um pouco. Aconteceu já na Africa do Sul. E a experiência está se repetindo por outras paisagens. Começou com o pessoal da M&C Saatchi F&Q, uma agência de publicidade. Em São Paulo buscaram o Instituto Doar. Objetivo: criar uma experiência de consumo para os que não consomem. Ou seja, oferecer aos moradores de rua roupas que sirvam neles, que eles possam escolher, que tenha atendentes que sugiram o que fica bem ou não. Com o detalhe de que esses vendedores não vendem, são voluntários e as roupas sairão de graça.

Depois da experiência do Largo da Batata a iniciativa deve percorrer outras praças no centro da cidade. Mas o objetivo é que a ideia seja copiada, replicada, multiplicada por pessoas, empresas, coletivos, instituições. Dar dignidade ao ato. Juntar o doador com o beneficiário, humanizar o processo. Quer um exemplo?

Para pesquisar o melhor lugar e encontrar parceiros locais, conheci a Dona Elza, que cuida da loja que existe na Igreja do Largo. Essa loja vende peças a 2 reais. Eu até brinquei com ela que na próxima sexta seremos concorrentes. Venderemos mais barato: de graça. Ela riu e falou que tudo bem. A loja, assim como a iniciativa Street Store tem em seus estoques roupas doadas. É uma espécie de bazar social. E mesmo com preços tão baixos, tem ainda uma caixa de roupas que são de graça, por estarem rasgadas ou muito (muito) velhas.

Agora pare um minuto pra pensar: Existem as lojas caríssimas. Aí existem aquelas de shopping. Aí existem as baratinhas do bairro. E estamos falando agora de mais dois segmentos: as lojas de 2 reais e … as de graça. Do máximo ao mínimo. Do consumo ao desapego. Do ter ao doar. A ideia não é evangelizar ninguem para que todos deixem suas roupas caras e doem tudo. Mas para que encontrem o seu equilibrio, a sua dose, a sua fórmula.

Eu tenho uma filha de 16 anos. Muito orgulhosamente ela é uma voluntária da iniciativa, assim como outras amigas que ela convenceu. Na semana passada ela estava arrecadando em um semáforo para a ong TETO, que constrói casas para pessoas necessitadas. Eu não a convenci de nada. Mas desde pequena, depois do aniversário, quando recebia muitos brinquedos, tínhamos um acordo para que ela decidisse quais seriam os antigos (e em bom estado) que ela iria abrir mão e doar para uma creche perto de casa. Essa era a dose que definíamos. Era o espaço no armário. Não caberiam novos brinquedos se não tirássemos outros. Era um bom espaço, mas foi a fórmula, a medida que se estabeleceu.

Voltando à Dona Elza, ela me apresentou o Seu José. Ele é um dos que ajuda a cuidar da Igreja. Não poderíamos chamá-lo de segurança. Acho que se eu espirrar forte, corre o risco dele cair com o vento, de tão magrinho que é o seu José. Aparenta ter mais de 60 anos, mas tem bem menos, não tive coragem de perguntar. Ele foi morador de rua. Depois morou em um abrigo. Morar é exagero dizer, porque nesses abrigos você não mora. Toda noite é um esforço saber se haverá vaga pra você. Quem viu o filme “À procura da felicidade” com o Will Smith vai lembrar das cenas. Pois seu José hoje, com muito orgulho, paga um aluguel. Saiu das ruas, mas está sempre a um passo delas. Explicou que deve 100 reais para o açougueiro em frente, porque a vida é dura. Mas parou de beber faz 11 anos. Foi o que o levou pras ruas antes. Perguntou-me se ele mesmo poderia pegar algumas roupas e eu disse que claro que sim. As roupas são para todos, não precisa de carteirinha de mendigo. Mas é pra levar algo que sirva nele, não qualquer coisa. Dignidade. Ele será atendido por pessoas preparadas para isso, como em uma loja. Respeito. Talvez seja a minha filha. Encontro entre doador e receptor. Conexão.

Veja como são as coisas. As meninas da agência de publicidade me falam da iniciativa, fazemos a parceria, de lá vou procurar o padre na igreja próxima, mas encontro a Dona Elza, que me apresenta o seu José. E quando eu pergunto sobre o abrigo, pois quero falar com eles para avisar do evento, ele me fala que o abrigo perto fechou. Abriu outro lá pra cima, na Cardeal.

Estacionei meu carro bem ao lado do abrigo que fechou. Perguntei pro cara do estacionamento sobre o abrigo, como era antes, com tanto morador de rua por lá. Queria, no fundo, saber qual era a sensibilidade dele sobre o caso. Tem gente que acha que miserável tem que morrer, tem gente que leva pra casa. Tem de tudo. O que pensaria aquele dono de estacionamento vizinho de um abrigo que fechou?

Faliram. Ãh? Uma ONG Faliu? Pois é. Ele me explicou didaticamente. Um funcionário custa por exemplo mil reais, só que a prefeitura para 600. Os 400 que faltam a ONG que cuida do abrigo tem que se virar (eles tem que ir atrás de doações, ele falou). Só que como o dinheiro era curto, precisaram demitir alguns. Só que esses que demitiram eram os mais antigos. Aí tiveram que pagar 30, 40 mil reais de rescisão. Eles não tinham esse dinheiro. Os diretores da ONG tiveram que pagar do bolso, a ONG fechou, os diretores devem dinheiro por aí, devem estar procurando emprego. O cara do estacionamento, com a sensibilidade lá dele, sem ser nenhum sociólogo ou mecenas de nada, percebeu, dentro de sua lógica de empresário, que a conta não fechava, que faltaram doações.

Então, sem querer chegar a alguma conclusão, algum final feliz ou trágico, fica essa reflexão. Qual seria a ótima equação? Como definir a situação possível? O que fazermos, cada um de nós? Falar o que os outros tem que fazer, a gente sabe. Em época de copa do mundo, somos 200 milhões de técnicos de futebol. Tenho certeza que cada um de nós temos na cabeça todas as soluções do mundo.

Mas o que eu posso fazer? Bem, o seu José fez o que fez: parou de beber, saiu das ruas. A Dona Elza trabalha como voluntária numa loja social que vende roupas a 2 reais. Ela é meio rabugenta, reclamou de vários dos clientes que apareceram por lá enquanto conversamos. Mas ela soltou um sorriso algumas vezes, que foi profundo, pura conexão. Se ela faz algo na vida, é aquele sorriso. Eu poderia te perguntar o que você pode fazer, mas seria presunçoso. Eu repito pra mim, o que eu posso fazer?

Não há solução final, mas cada um faz um pedaço e isso pode ser absolutamente agradável, principalmente para quem faz. Doar é um prazer muitas vezes maior para quem doa do que para quem recebe. Dar presentes é muito mais gostoso do que receber, sabemos disso e as pesquisas confirmam. Então ao invés de doar aquele agasalho velho e rasgado, ou aquele azeite que você comprou a mais, que tal doar algo que você se orgulhe de ter doado? Ao invés do mal estar da esmola, que tal o prazer de ver a felicidade na cara de quem recebe? Mas isto está começando a parecer lição de moral. Não quero isso. Eu queria falar da Dona Elza e do seu José. E queria te convidar pra ir no Largo da Batata esta sexta feira. Estarei por lá. E o pessoal da agência, e a Elza, e o Fernando, a Teresa, o seu José, e minha filha. Ix, esqueci de convidar o cara do estacionamento.