Certificar uma ONG?

Processos administrativos, contábeis, financeiros, de comunicação, são verificáveis . Recomenda-se que sejam públicos e transparentes, já que os recursos são provenientes de doações e patrocínios  e se espera o melhor uso desse dinheiro.

Uma ISO9000 das ONGs? Um ranking? Que tal um selo que gera uma garantia focada na administração dos recursos? Metodologias, pedagogias e procedimentos de cada ONG com seus públicos não podem nem devem ser comparáveis como uma prática padronizável. Mas a gestão e a transparência dos recursos, sim.

Quem é da área deve lembrar da primeira edição do Prêmio Bem Eficiente, do Stephen Kanitz. Ele, que cuidara por 25 anos da edição Maiores e Melhores da Revista Exame, decidiu aventurar-se no mundo do terceiro setor, usando métricas e gerando comentários positivos e negativos. Era um ser estranho no mundo das ONGs, falava outra língua. Muitos o acusaram de se envolver onde não devia e deve ter encontrado mais inimigos do que amigos no setor.

Para nós, criadores do Instituto Doar, Kanitz foi um pioneiro. Não o conhecemos, mas fica aqui nossa homenagem a ele. O grande impacto percebido no decorrer dos anos, mais do que o prêmio, mais do que as vencedoras, mais do que o método, foi o que as ONGs decidiram fazer com essas premiações. Ainda podemos encontrar em sites e folhetos a citação de esta ou aquela ONG ter sido vencedora de alguma edição do Prêmio Bem Eficiente.

Isso nos fez pensar que, mais do que um prêmio com poucos vencedores, há um ecossistema que se beneficia do processo todo. Um Oscar não premia somente os ganhadores da estatueta mas põe pra cima todo um setor, estimula uma competição saudável, não entre pessoas ou instituições mas entre o que se é e o que se pretende ser. Uma ONG pode e deve ser estimulada a melhorar continuamente, assim como os diretores ou cenógrafos de um filme.

Kanitz também nos trouxe em um de seus artigos sobre a experiência, 3 dados muito precisos:

  • As 50 instituições de caridade mais bem administradas do ano dobraram a sua renda de donativos nos três anos seguintes.
  • Em média receberam R$ 2.000.000,00 de donativos adicionais no triênio seguinte.
  • A maioria do dinheiro adicional veio de pessoas que nunca haviam doado antes.

Com essa reflexão em mente, estudamos nos últimos dois anos mecanismos que pudessem fortalecer, reforçar e estimular as organizações, ao mesmo tempo que criassem, no âmbito dos doadores, uma cultura de doação. Facilitar a escolha, separando o joio do trigo. Aumentar os donativos, mas para aquelas que merecem, por seus padrões de gestão e transparência.

selocertificadoBuscando a experiência consolidada do modelo ISO, localizamos uma iniciativa chamada NGO Benchmarking que criou, faz alguns anos, uma certificação bastante complexa. Em mais de 5 anos de atuação, certificaram no mundo um punhado de ONGs. Menos de 10 no Brasil. Nenhuma delas inclusive renovou sua certificação. É a típica ideia tão boa e perfeita que se torna inviável.

Optamos então por uma certificação mais simplificada e focada, já que o prêmio Bem Eficiente, sem querer ocupar esse papel, acabou ocupando-o. Centenas de ONGs vencedoras se orgulham de mostrar o logo do prêmio, como um troféu, como um selo, como… um certificado! Quais seriam então as questões comprováveis que valeria a pena avaliar e chancelar como exemplares?

Fomos a campo pesquisar o que havia no Brasil e no mundo e encontramos um conjunto de coisas. No Brasil nada era completo, estávamos montando um quebra cabeça entre processos que se cruzavam, como o código de ética da ABCR, as iniciativas de transparência do GIFE e da ABONG e diretrizes de governança do IBGC.

Uma saudável surpresa foi encontrar uma organização internacional que agrupa agências de avaliação de vários países. A ICFO (International Committe on Fundraising Organizations) é também conhecida atualmente como a associação de agências nacionais de monitorização. Foi criada em 1958 para harmonizar procedimentos e standards para avaliação, análise e acreditação das ONGs. Seu objetivo é garantir segurança e confiança aos doadores de que seus aportes sejam utilizados pelas ONGs para os fins que foram solicitados.

Os membros da ICFO são entidades de diferentes perfis que realizam avaliações independentes das ONGs. ICFO não impõe uma metodologia aos membros integrantes. Cada um deles conta com sistemas diferentes adaptados às peculiaridades do setor e às normas aplicáveis em seus respectivos países. Atualmente ICFO está formado por 16 entidades de 15 países da Europa, América e Asia. Uma curiosidade: O Instituto Doar é o único do hemisfério Sul.

icfo

Encontrar pares nos fez avançar com mais tranquilidade em nosso objetivo de certificar as organizações brasileiras. Um de nossos receios era a pergunta: Quem certifica os certificadores? Como poderíamos nos considerar tão acima do bem e do mal para julgarmos terceiros? A organização internacional entre pares gera um espaço de diálogo, reflexão e melhoria contínua no próprio procedimento de certificação.

Duas entidades nacionais associadas ao ICFO nos chamam especial atenção: Fundación Lealtad na Espanha e Confío, no Mexico. Ambas estão em países cujas culturas de terceiro setor e doação são similares (ou muito próximas) das nossas culturas. Espanha com algo a mais de experiência, México um pouco menos, mas ambos países com situações que permitem benchmarks para nossa certificação, principalmente pelo universo das ONGs nos 3 países.

Queremos dedicar 3 parágrafos para falarmos sobre a Fundación Lealtad, em função de seus mais de 10 anos de experiência e dos resultados obtidos. Ela é uma organização criada em 2001 por doadores que notavam uma escassa informação sobre as ONGs existentes.

É financiada 25% de governos, 19% de patronato e 56% de empresas. Oferece avaliação gratuita para as ONGs que solicitam, em função desse sistema de financiamento. Pauta-se por 9 princípios de transparência e boas práticas. Realizou nesses anos 450 informes e publica no seu site todas as informações.

Nossa inspiração se pautou por duas grandes frentes. Os 9 princípios da Fundación Lealtad e os 8 pré-requisitos que desenvolvi ao longo de minha trajetória como consultor em Fundraising. Com algumas adaptações e integrações, chegamos a um modelo que contempla, em um só conjunto de questões, elementos do IBGC, ABCR, ABONG, GIFE e internacionalmente ICFO e suas 15 certificadoras associadas. Denominamos como os 5 critérios de Gestão e Transparência:

5criterios

O sistema que criamos envolve um processo onde a própria organização busca a certificação e paga por participar. O processo de certificação tem validade de um ano e custa 450 reais. Percebemos, em conversas com outras organizações, que o valor está de acordo a democratizar o acesso para todo tipo de ONG e ao mesmo tempo não estimula a prática da gratuidade, que em muitos casos desvaloriza o procedimento. Também foi uma opção do Instituto Doar, de se financiar diretamente pelas organizações participantes e não por empresas ou governos. Existem negociações para que estes possam ser financiadores, mas de grupos ou redes de ONGs. A precificação será por processos de certificação e não por patrocínios. Acreditamos que esta forma é saudável e mantém a isonomia nos procedimentos e a autonomia da instituição.

Por fim, queremos convidar a todos a participar desse amplo processo de melhoria continua no setor no Brasil. Oferecemos no site da organização um processo de autoavaliação, totalmente gratuito. Com ele é possivel perceber o estágio atual da entidade e também vamos todos nos familiarizando com a certificação das ONGs. Esperamos contribuir não só ampliando a voz das boas entidades, legitimando-as, como também aumentando as doações para estas, num ciclo virtuoso de melhoria contínua.

 Por onde começar? Faça um teste de autoavaliação aqui.

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